Projetos de tradução e dinheiro: nitroglicerina pura
Certa vez escutei de um pastor que alguns temas para nós, cristãos, são como nitroglicerina: se mexermos incorretamente com eles, eles explodem, inevitavelmente. São tabus ou temas difíceis, que para ninguém é confortável discutir ou falar. No entanto, negligenciá-los ou ignorá-los é algo ainda mais perigoso.
Um desses temas é o dinheiro.
Quando falamos em tradução da Bíblia, enfatizamos, e com razão, o aspecto absolutamente missáonário desse tema. Empreender a tradução da Bíblia para um determinado idioma empodera, abençoa, alcança, transforma vidas. E, em última instância, é o poder transformador da Palavra de Deus que nos movimenta e impulsiona.
No entanto, encerrar-se no aspecto puramente missáonário da obra bíblica é um caminho utópico. As intenções são fundamentais, mas não se pode ignorar as necessidades implicadas num projeto de tradução. Materialmente, há coisas que pagar, fazer, comprar, ter (etc.!) a fim de tornar um projeto possível. Por isso, é preciso falar, e falar aberta e conscientemente, sobre dinheiro, já que os investimentos são parte da obra de estabelecimento do Reino de Deus na terra.
Falemos dos doadores. O interesse do doador, obviamente, é perceber que seu dinheiro está sendo investido em um projeto relevante, que impactará vidas, que cumprirá integralmente a missão de Deus. Portanto, muitas vezes ele exerce uma pressão sobre os projetos, porque tem interesse em que o assunto avance. Essa pressão nem sempre é tomada de uma maneira positiva, o que acaba gerando um certo antagonismo em relação ao doador.
Acredito que esse antagonismo é prejudicial e danoso. É importante tomar a figura do doador de uma forma positiva. Não se deve perder de vista que o interesse é positivo: de que a obra avance. Para que alguém dê seu dinheiro para um projeto de tradução, isso primeiro precisou ter nascido em seu coração. Assim, o desejo de cooperar genuinamente é algo que nos une, a nós, consultores, tradutores, revisores, igrejas, e aos doadores.
Quando fazem uma pressão e não entendem a realidade dos projetos, é bom tratar de ilustrar de forma criativa e fazê-los ver tudo o que envolve o projeto que estão financiando e lhes mostrar a realidade econômica do ambiente dos tradutores, a fim de que eles possam entender como o que estão doando está servindo, de forma prática, para fazer um projeto existir.
É claro que o papel do doador não deve ser algo escravizador, ditatorial ou unilateral, que marca o ritmo do projeto. Deve haver um equilíbrio. Já que os recursos são limitados, há que pensar o que podemos na realidade fazer com aquilo de que dispomos. Se não há recursos, apesar de haver boas ideias, não se pode chegar à prática. Ou seja, devemos, todos que fazem parte de um projeto de tradução bíblica, ser abertos, flexíveis e realistas.
Por fim, creiamos que Deus faz sua parte, motiva as pessoas, toca os corações, mobiliza os recursos. Confiemos que a obra não nos pertence, mas é primeiramente um sonho que nasceu no coração do próprio Deus.


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